‘Imortal’ é destaque em visita guiada no SJB

imortalNo mausoléu dos imortais, onde repousam os maiores nomes da nossa literatura, surge uma figura pálida vestindo o conhecido fardão da Academia Brasileira de Letras. Em meio a olhares espantados dos visitantes, o morador da cripta declama um de seus textos, narrando a ocasião de sua morte, seu velório, e sua maior decepção: não ter conseguido lançar ao mundo sua maior invenção: o milagroso emplastro Brás Cubas.

A cena, que pode ser vista nas visitas guiadas mensais no cemitério São João Batista, é uma homenagem a Machado de Assis, fundador da Academia Brasileira de Letras, feita com a leitura do trecho de um de seus livros mais famosos e apropriados para o tema: Memórias Póstumas de Brás Cubas. A interpretação do ator Tiago Atzevedo é o ponto alto da visita, que passa pelos túmulos de grandes brasileiros como Santos Dumont, Carmem Miranda, Clara Nunes e Oswaldo Cruz, revisitando a história através de suas memórias e das obras de arte que adornam seus túmulos.

Depois da surpresa, os visitantes aplaudem, e o “Machado” renascido rapidamente vira o foco da imprensa que acompanha o passeio. “Esta é uma iniciativa muito interessante, porque faz com que as pessoas tenham outra visão do cemitério. Geralmente só se vem aqui em momentos de dor, e ninguém percebe toda a história que está aqui neste verdadeiro museu a céu aberto”, destaca Tiago, em entrevista para a agência internacional Reuters.

Turismo e memória

imortal2Acostumado a fazer visitas culturais em cemitérios por diversas partes do mundo, o engenheiro Antônio Moutinho se surpreendeu com a riqueza histórica e artística do São João Batista, e espera que o passeio entre definitivamente no roteiro turístico da cidade. “Eu sentia muita falta de algo semelhante ao que já existe na França, Estados Unidos e Argentina por exemplo. É muito bom ver que o cemitério está sendo recuperado. Isso é uma forma simples da gente tornar viva nossa cultura, trazer a memória, e a história que o nosso País precisa conhecer cada vez mais”, destacou.

A antropóloga Jamile Barbosa, que faz uma pesquisa relacionada aos cemitérios da cidade, também ressaltou a importância de resgatar a memória de milhares de brasileiros que repousam no São João Batista como uma forma de homenageá-los e de mudar a visão que se tem do local. “O passeio tira o estigma e o medo que as pessoas têm da morte. Isso convida a gente a conhecer a cultura e o patrimônio que a existe aqui dentro”.